Em um movimento que mistura nostalgia, empreendedorismo e a ousadia sem limites da internet, a criadora de conteúdo Mis Scarlett – personagem da influenciadora Luana Santos – está reescrevendo o legado de um dos maiores símbolos sexuais da TV brasileira. Ao recriar o icônico quadro de depilação masculina da Tiazinha, famoso nos anos 1990, Scarlett não apenas viralizou: ela construiu uma máquina de faturamento no mundo adulto digital, provando que alguns arquétipos são atemporais – especialmente quando adaptados à linguagem e à liberdade das plataformas modernas.
A ascensão da “nova Tiazinha” começou, como tantos fenômenos da internet, de forma orgânica. Após ser flagrada na praia usando um visual que remetia à personagem – máscara preta e biquíni mínimo –, Scarlett viu o comparativo explodir nas redes. Em vez de recuar, ela abraçou a identidade e a transformou em negócio. O resultado é um conteúdo gravado nas praias de Santa Catarina, onde ela aborda homens (conscientes ou não) para viverem a experiência dolorosa e cômica da depilação com cera quente, tudo registrado para seu Privacy, plataforma similar ao OnlyFans.
Por que a Tiazinha ainda é um fenômeno? A nostalgia a serviço do conteúdo adulto
“Eu sempre achei a Tiazinha um sex symbol, né? Mas nunca pensei de fato nessa comparação, nem me achava parecida. Quando começaram a me chamar assim na internet, percebi que era um convite para assumir esse lugar. A personagem me escolheu”, reflete Scarlett. Essa percepção é mais profunda do que parece. A Tiazinha original, interpretada pela atriz Cátia Paganote, era uma figura de contradições: uma enfermeira que, longe do hospital, aplicava depilações com um misto de frieza profissional e sadismo divertido. Era cômico, era sensual, era transgressor para a TV aberta da época.
Scarlett capturou a essência desse arquétipo, mas com a vantagem crucial da era digital: sem censura, sem horário comercial e com monetização direta. “Se a Tiazinha existisse hoje no Instagram ou TikTok, seria exatamente isso: divertida, atrevida, viral e faturando alto”, analisa a criadora. Ela está certa. O formato é perfeito para o engajamento atual – rápido, visual, interativo e com uma pitada de humor que dilui o tabu.
O sucesso financeiro é estrondoso: Scarlett fatura cerca de R$ 120 mil mensais com seus vídeos, um número que evidencia o apelo comercial da fórmula.

A evolução de um tabu: da TV para as plataformas sob demanda
O fenômeno Mis Scarlett/Tiazinha 2.0 é um estudo de caso sobre a migração do entretenimento adulto. Nos anos 90, a atração estava na sugestão, no duplo sentido e no risco do ao vivo na TV aberta. Hoje, a atração migrou para a autenticidade, o acesso sem intermediários e a interação direta entre criadora e consumidor. O que antes era um quadro dentro de um programa de auditório agora é um produto independente, distribuído globalmente, com prévias nas redes sociais para gerar hype e o conteúdo completo (e mais explícito) em uma plataforma paga.
Esse modelo não apenas empodera financeiramente a criadora, como também redefine a relação com o público. Não há mais a distância intransponível da celebridade da TV; há a proximidade de uma criadora de conteúdo que comenta DM, posta stories e vende uma experiência personalizada. Scarlett já planeja expandir o conceito com uma turnê de verão e eventos temáticos, sinalizando que vê a personagem como uma franquia, não como um meme passageiro.
“A Tiazinha marcou uma geração. Eu quero marcar a minha também. E com esse quadro, descobri uma nova tara dos caras”, finaliza a influenciadora. Sua fala sintetiza o ciclo da cultura pop: ícones do passado são ressignificados pelas gerações futuras, ganhando novas camadas de significado em contextos sociais diferentes.
A trajetória de Mis Scarlett é, portanto, mais do que uma simples replicação. É a prova de que certas figuras culturais possuem um DNA poderoso, capaz de se adaptar e prosperar em qualquer ecossistema midiático. Enquanto a TV dos anos 90 via na Tiazinha um risco calculado, a internet do século 21 vê nela uma fórmula de sucesso garantido – desde que, claro, esteja nas mãos de quem entende que, por trás da máscara e da cera quente, o que realmente vende é a combinação perfeita entre identificação e fantasia.





